casamento, sexualidade

“Quero desejar meu marido outra vez”

O relato da mulher que testou o Viagra feminino desperta uma reflexão necessária: precisamos mesmo da pílula rosa?

CRISTIANE SEGATTO
22/06/2015 – 08h05 – Atualizado 22/06/2015 08h05

Parece que agora vai. Depois de anos de discussão em torno do lançamento de um remédio para aumentar o desejo sexual feminino, espertamente e exageradamente apelidado de “Viagra feminino”, tudo indica que até agosto ele chegará ao mercado nos Estados Unidos.

Um grupo de consultores da FDA, a agência americana que controla medicamentos e alimentos no país, recomendou a aprovação da droga flibanserina. A discussão prossegue, mas é provável que a produção seja autorizada.

Flibanserina, chamado de "Viagra feminino" (Foto: Allen G. Breed/AP)Flibanserina, chamado de “Viagra feminino” (Foto: Allen G. Breed/AP)

O remédio foi criado para aliviar o chamado transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH), uma condição prevista no Manual de transtornos mentais, da Associação Americana de Psiquiatria.

Ninguém duvida de que a falta de desejo sexual seja um problema real. Ele afeta pelo menos 10% das mulheres, segundo pesquisas citadas pela indústria farmacêutica. O erro é acreditar que uma pílula será a solução mágica para uma dificuldade que, quase sempre, está relacionada a questões psicológicas ou culturais.

Conflitos dentro do relacionamento, monotonia conjugal, tabus, falta de domínio da mulher sobre o próprio corpo… Tudo isso é capaz de sabotar o desejo sexual. Há ainda as doenças (diabetes, por exemplo) e medicações (antidepressivos e outras) que podem afetar a vontade de fazer sexo. O problema é complexo demais para a solução vir embalada em pílulas.

Comparar a flibanserina com o Viagra é um pouco demais. Menos, minha gente, bem menos. A pílula azul e suas sucessoras garantemereções aos homens que têm um problema funcional – a dificuldade de circulação sanguínea para o pênis. A eficácia é claramente observável. O homem toma o remédio e, se tiver desejo sexual, verá o resultado pouco tempo depois.

No caso das mulheres, o problema não é simples como umadisfunção mecânica. O sexo desanda porque o cérebro não sente desejo. Por isso é tão difícil desenvolver um remédio que vá além dos benefícios modestos e das promessas de marketing.

Nesse aspecto, não faltou criatividade. Um movimento nas redes sociais, apoiado pelas empresas interessadas em aprovar drogas para aumentar a libido feminina, adotou a linguagem feminista para conquistar simpatia para a “causa”.

O argumento era o de que as mulheres precisavam ter direito a um Viagra, já que os homens podiam contar com esse recurso há muito tempo. Uma estratégia engenhosa para retirar a discussão do campo científico (sobre os reais riscos e benefícios das drogas em teste) e colocá-la no campo político.

A droga flibanserina age no cérebro, em neurotransmissores relacionados ao humor. Ela foi rejeitada duas vezes pela FDA, sob o argumento de que a eficácia era muito modesta em comparação com as pílulas sem efeito terapêutico (placebo). No início dos testes, as voluntárias relataram de duas a três relações sexuais satisfatórias por mês. O remédio garantiu-lhes uma a mais.

Para conquistar esse benefício é preciso fazer uso crônico do remédio. Todos os dias, para sempre e com o risco de sofrer efeitos colaterais como desmaios, sonolência, tonturas, queda da pressão arterial. Vale a pena?

Uma das voluntárias dos testes, Amanda Parrish, de 52 anos, testemunhou diante da FDA para pedir a liberação da flibanserina. Num relato publicado na semana passada pela revista TimeAmanda explica por que está “apaixonada pela pílula”.

Criada numa comunidade batista do sul dos Estados Unidos, Amanda cresceu num ambiente cultural no qual desejo não era assunto para mulheres. “Aprendi que sexo era para procriação, não para recreação”.

Ela conheceu o marido, Ben, em 2005. Era o segundo casamento de ambos. Uma relação adulta, baseada no diálogo e no respeito. Segundo ela, a vida sexual era completa. “Não havia inibições.”

Até que, em 2008, alguma coisa começou a faltar. Amanda, que costumava tomar a iniciativa de atrair o marido para o sexo, começou a se desinteressar.

Numa das consultas médicas, viu um panfleto sobre TDSH e decidiu ser voluntária nos testes. O depoimento de Amanda é revelador. Vale a pena ler um trecho e refletir sobre ele.

“Duas semanas depois do início dos testes, eu estava mandando uma mensagem de texto para o Bem, no meio da tarde, quando percebi que queria fazer sexo. Senti uma vibração e disse a ele: ‘Acho que isso (o remédio) está funcionando’. Estava de volta ao meu estado normal.
Parte da minha hesitação em relação à droga estava relacionada ao estigma. Eu passaria a ter vontade de fazer sexo o tempo todo? Pularia sobre todos os homens que visse? Em vez disso, era como se eu estivesse enchendo de novo um copo de água meio vazio. Voltei a ser quem era. Em pouco tempo, era eu quem sugeria que pulássemos a sobremesa e fôssemos para a cama.

A qualidade do nosso sexo durante o estudo era muito diferente. Sempre ouvi que, para fazer sexo, os homens precisam de um lugar enquanto as mulheres precisam de uma razão. O que eu percebi foi que Ben respondia de outra forma quando percebia que eu o desejava.

Finalmente falávamos abertamente sobre sexo. Acho que essa intimidade salvou o nosso relacionamento. Por isso, sou tão apaixonada por essa pílula. Há tantos casais que não falam sobre sexo e, por isso, não percebem o que vai mal.

Fiz parte da pesquisa durante oito meses. Quando a FDA cancelou o estudo, meu desejo foi embora. Tentei outras coisas. Li Cinquenta tons de cinza pelo menos 12 vezes.

Tentei tomar testosterona, mas percebi que ela funcionava melhor na academia de ginástica do que na cama – e fiquei preocupada com os efeitos colaterais que estava observando.

Algumas pessoas disseram que eu precisava de uma barra de chocolate, de uma taça de vinho, de uma praia no Taiti ou de um novo parceiro. Isso pode ser verdade para um grande número de mulheres. Possivelmente, elas não têm TDSH.

Tentei terapia. Acho que pode funcionar para muita gente. Cansei de falar sobre o meu problema, mas acho que todos esses recursos são apenas soluções temporárias.

Há muitos produtos para ajudar a mulher a ficar excitada e lubrificada. A pílula é a coisa que faltava. Sei que ela funcionou comigo. Espero que seja aprovada. Quero desejar meu marido outra vez.”

Teria sido a pílula a responsável pelo desejo de Amanda ou a predisposição emocional a imaginar que ela funcionaria? Foi o remédio ou a possibilidade de conversar abertamente com o marido sobre sexo? Foi mesmo a pílula quem salvou a intimidade do casal?

Difícil saber. A minha sensação é a de que o desejo feminino tem muito mais a ver com o clima envolvente, com o interesse do parceiro e com o domínio da mulher sobre o próprio corpo e a própria vontade do que com uma questão meramente química.

Falar sobre sexo e, desde sempre, considerá-lo como uma das coisas mais naturais e prazerosas da vida é mais importante que medicalizar todos os aspectos da existência. Palavra de quem reconhece a importância da indústria farmacêutica e do desenvolvimento científico. Sem essas duas atividades, nossa vida seria miserável. Mas é preciso aceitar que o alívio do sofrimento humano nem sempre ocorre com uma ida à farmácia.

http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/cristiane-segatto/noticia/2015/06/quero-desejar-meu-marido-outra-vez.html

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