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O dia 10 de setembro é o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Por aqui, foi criado o setembro amarelo.

Um brasileiro se mata a cada 45 minutos e 50 tentam suicídio por dia. Os números, considerados graves pelo Centro de Valorização da Vida, levaram a organização a criar este ano a campanha setembro amarelo. Confira entrevista:

No Brasil, segundo o Mapa da Violência do Ministério da Saúde, 25 pessoas morrem vítimas de suicídio por dia e ao menos outras 50 tentam tirar a própria vida. É um brasileiro que se mata a cada 45 minutos.

Um estudo da Unicamp também mostrou que 17% dos brasileiros já pensaram seriamente em cometer suicídio no decorrer de suas vidas.

Esses números fazem com que o país ocupe a oitava posição mundial em números de suicídio no mundo, segundo o Centro de Valorização da Vida (CVV), instituição que atua há 53 anos na prevenção do suicídio e da depressão.

Foi também por todo esse cenário que o CVV criou esse ano o setembro amarelo, que tem como data de partida o dia 10 de setembro, o Dia Mundial para a Prevenção do Suicídio.

Na esteira de outras campanhas que tentam alertar para a prevenção de condições graves no país, como o outubro rosa (câncer de mama) e novembro azul (câncer de próstata), o setembro amarelo visa chamar a atenção para um tema, que segundo o CVV, é ainda tratado como tabu.

Iluminação amarela no Senado nesta quarta-feira (9) em apoio à campanha para a prevenção do suicídio. Foto: Ana Volpe/Agência Senado

O suicídio é caso de saúde pública no mundo inteiro. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 800 mil pessoas se suicidam por ano e uma pessoa se mata a cada 40 segundos. O grupo mais vulnerável ao suicídio, segundo o CVV, são homens idosos, mas a taxa está crescendo mais entre os jovens. Segundo a OMS, o suicídio é a segunda maior causa de mortes na faixa etária entre 15 e 29 anos.

O Saúde!Brasileiros, conversou com Carlos Correia, voluntário do CVV há 23 anos,  um dos principais porta-vozes do grupo e um dos mentores do setembro amarelo.

Saúde!Brasileiros: Como o Brasil está localizado hoje em relação ao suicídio?

Carlos Correia: O Brasil está na oitava posição em números absolutos relacionados ao suicídio com uma distribuição regional que varia muito em todo o território. No Rio de Janeiro e no nordeste, por exemplo, as taxas são baixas. No sul, no entanto, ela chega a 15%. A cidade com mais casos de suicídio no Brasil é Venâncio Aires, no sul.

Sabemos o porquê dessa distribuição?

Não temos informações específicas sobre isso, mas sabemos que o suicídio está relacionado em alguns grupos a disponibilidade e proximidade de “armas”. O agrotóxico é uma delas e armas de fogo também –o que leva, por exemplo, a serem altíssimas a taxas de suicídios entre policiais.

A depressão é uma das portas de entrada?

Ela é a principal e também a mais negligenciada. A pessoa com depressão tem sua situação agravada às vezes porque é chamada de preguiçosa em casa, acusada de não ser forte. Ainda há muito tabu e preconceito.

O suicídio ainda é um tabu na sociedade?

E muito. Se depressão já é, imagine o suicídio. Primeiro, porque estudos mostram que cada morte por suicídio afeta diretamente de 6 a 8 pessoas que se sentem culpadas e ficam emocionalmente abaladas. Elas não recebem tratamento adequado e têm dificuldade de falar sobre o assunto.

Outro indício também é o papel da imprensa, que não trata o assunto. Os programas sobre o tema só passam tarde da noite e criou-se um consenso de que não se pode falar sobre porque vai estimular outras pessoas a fazerem o mesmo. O que não é indicado fazer é divulgar detalhes, mas se pode ter um foco na depressão.

Tem algumas questões históricas envolvidas também. Em algumas religiões, a pessoa que se matou tem um serviço funerário diferenciado, não pode ser enterrada da mesma forma. Enfim, o tabu é um reflexo de vários setores da sociedade.

É indicado noticiar o suicídio?

Entendo que seja complexo, mas é preciso falar sobre o assunto, mas estimulamos que ele seja mais divulgado, principalmente no que tange à prevenção. Há diferentes formas de noticiar, no entanto. Não é interessante divulgar a forma com a qual a pessoa se matou nem glamourizar o ato e alguns podem se sentir estimulados a virar notícia.

Em qual faixa etária o suicídio é mais frequente e quais pessoas estão mais vulneráveis?

A taxa está se acelerando entre os jovens, mas as pessoas que mais se matam são homens idosos. Um outro grupo bastante vulnerável é aquele formado por quem que já tentou o suicídio previamente. Os casos são altíssimos na primeira semana após uma tentativa frustrada. Por esse motivo, também, faz-se necessário um protocolo mais específico de prevenção nesse período, para que a pessoa não vá para o hospital, tome um antidepressivo e seja liberada logo depois.

Selo da campanha criada este ano pelo CVV estimula a falar sobre o suicídio. Divulgação

Qual a principal estratégia de prevenção?

São muitos os caminhos, estudos mostram que 90% dos suicídios poderiam ser evitados. A prevenção começa por termos o costume de fazer uma auto-avaliação emocional. Medimos pressão e glicemia, mas não estamos acostumados a nos avaliar emocionalmente. O outro é prestar atenção aos sinais e a não minimizar pessoas que falam “eu vou sumir, “não consigo sair da cama”, “logo vocês vão se livrar de mim”.

Como a prevenção pode ser estimulada nos mais jovens?

Olha, estamos prestando muita atenção aos aos casos de bullying. No Japão, por exemplo, o começo do mês de setembro é o período em que os jovens mais se matam e sabe por qual motivo? É a volta às aulas por lá. Os jovens que se sentiram aliviados durante as férias se veem aterrorizados pela volta das agressões.

E em crianças, é possível?

Em crianças, pode se estimular uma educação emocional para a auto-avaliação dos sentimentos. Perguntar em casa, por exemplo, como ela se sente, se esta feliz, se não está. E, claro, estimular a conversa de modo geral, fazer com que esse indivíduo aprenda a se abrir.

Pode dividir com a gente uma história emocionante do CVV nos seus 23 anos de trabalho?

Como voluntário, eu tinha muita dificuldade de lidar com pacientes terminais que queriam tirar a própria vida. Em um dos cursos, um homem apareceu. Ele disse que ajudamos a sua esposa no final da vida e queria retribuir, ser voluntário.

Ele disse: “Eu não sei o que vocês fizeram, mas a situação estava muito difícil lá em casa até que descobrimos o telefone de vocês. A minha esposa conversava, nunca ouvi, não sei do que se tratava, mas tudo flui bem melhor nos seus últimos dias.

Aquilo me emocionou e eu entendi o trabalho que estávamos fazendo. Recentemente, o depoimento da Cássia Kiss que usou o CVV e nos agradeceu publicamente também me emocionou.

[Carlos se emociona na entrevista. Na TV, a atriz deu o seguinte depoimento: “Certa vez, há muitos anos, precisei de ajuda especial. Tinha vontade de desaparecer (coisa normal no mundo de quem não tem compromisso, responsabilidade comunitária). Chamei o CVV. Estou viva e integrada”]

O que fazer para se tornar um voluntário do CVV?

Basta entrar no nosso site. Estamos precisando muito de voluntários. Qualquer pessoa pode participar e oferecemos treinamento. O plantão é feito uma vez por semana, durante 4h30 minutos.

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