Antologia

Precisamos falar sobre a sua alimentação | Joaquim Leães De Castro

“Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio/ Ó produtores de alimento com veneno/ Vocês que aumentam todo ano sua posse/ E que poluem cada palmo de terreno

E que possuem cada qual um latifúndio/ E que destratam e destroem o ambiente/ De cada mente de vocês olhei no fundo/ E vi o quanto cada um, no fundo, mente” “Os Reis do Agronegócio” – Chico César

Collage of fruits and vegetables

Saúde é uma política de caráter integralista, um movimento que entende os indivíduos enquanto diversidade, que entende os indivíduos de forma heterogênea e que busca compreender as necessidades de cada comunidade e a relação que se constrói entre indivíduo e estado, e indivíduo e sociedade. Entende-se, portanto, que dar autonomia aos indivíduos é permitir que os cidadãos possam ser na sua complexidade e usufruindo dos bens, da política e da democracia que um estado de direito pode oferecer a eles. O que se segue é, para tanto, uma discussão que envolve a dificuldade em promover um espaço social com autonomia para os cidadãos. São possíveis políticas públicas que cedem e oferecem ao indivíduo uma autonomia “real?” Se fala em autonomia. Se fala em liberdade. Existe, então, uma “liberdade” de escolha, para o indivíduo, enquanto consumidor?

Segundo Renato Maluf, há um modelo produtivo e uma indústria de alimentos que governa, conduz e controla o que será produzido a partir de uma lógica econômica que visa lucros e que não pensa oferecer alimentos adequados ao consumo humano. Um monopólio que se estende a produção, a distribuição e comercialização, onde a ordem econômica influencia diretamente as decisões do estado, do governo, as decisões que passam pelas políticas e as instituições públicas.

Harriet Friedmann alega que a principal dificuldade da indústria alimentícia é conseguir produzir alimentos que possam ser vendidos a valores baixos já que a população possui salários baixos, e portanto, renda baixa para o consumo. Fica, portanto, como discussão o custo de produção dos alimentos bem como a maneira que isso afeta a população. Os interesses econômicos vem ao longo dos anos construindo e reconstruindo as tradições alimentares e isso afeta diretamente a qualidade da alimentação dos indivíduos que cada vez mais se tornam uma população urbana maior e que tem como demanda a chegada de alimentos todos os dias, e que por sua vez, passam a ser cada vez mais processados. Uma lógica que vem destruindo, segundo Debbie Field (1999), gerações de comportamentos alimentares, esmagando culturas e re-criando necessidades locais através da substituição de alimentos “bons” por alimentos processados sem qualquer valor nutricional, o que acarreta numa homogeneização do processo de alimentação dos indivíduos. O processamento dos alimentos sendo, então, uma solução financeira e ao mesmo tempo um fracasso total enquanto estratégia e política que entende a alimentação do indivíduo como um fator de qualidade da Saúde. Fica clara, portanto, a produção de alimentos “falsos”, sem valores nutricionais relevantes e que, segundo pesquisas, levam a doenças crônicas e ao excesso de peso. Quanto mais desfavorecida a classe, menor a qualidade do alimento devido seu barateamento. São vendidos, portanto, alimentos de baixa qualidade nutricional, altamente calóricos e com quantidades alarmantes de sal, açúcar e gordura. Além disso, não bastasse a má qualidade, percebe-se uma publicidade que ludibria o mesmo consumidor, que procura seduzir os consumidores através da ilusão de um bem-estar, de qualidade de vida, estilo e felicidade, e que o faz acreditar estar comprando alimentos com alguma qualidade. A Coca-Cola, como exemplo, não faz jus ao sabor de seu produto, mas a capacidade de oferecer uma vida de deleites e prazer. Salsichas e outros produtos embutidos que alegam fazer parte de uma alimentação saudável já que Mônica, Cebolinha e Cascão, assim como Tony Ramos, atestam sua qualidade, valor nutricional e importância na alimentação do brasileiro. Uma construção que visa a transformação do paladar dos indivíduos onde a indústria da primazia ao preparo rápido, preço e facilidade de inserção desses alimentos na vida e no dia a dia urbano do cidadão. Ideias que visam adaptação e lucro e não a alimentação do indivíduo. Fica como questão, a ideia de liberdade. Até onde se é possível pensar a ideia de livre mercado, de liberdade e da publicidade enquanto elementos que operam sobre a ignorância e na incapacidade do indivíduo ter acesso a informação. Não há, portanto, autonomia. Autonomia é ser capaz de decidir, e não ser uma liberdade que concede acesso restrito ao tipo de alimento ofertado. Uma lógica, portanto, que não se preocupa com a qualidade dos alimentos mas que cria ilusões, fantasias e ideias sobre esses alimentos. Surge, então, um Neo positivismo que preconiza um padrão sobre as necessidades nutricionais humanas que é, segundo John Wilkinson, calculada, criada e organizada pelo interesse da indústria alimentícia que tem receita na casa dos bilhões todos os anos. Uma indústria que busca estabelecer um “padrão de consumo” e que visa mesclar conceitos da agricultura à indústria. Dessa forma, lançando mão de tecnologias para a sofisticação de uma produção em massa apenas com o objetivo de melhorar a durabilidade dos alimentos. Processo, esse, que transforma as condições biológicas dos alimentos. Uma inversão de valores já que a lógica de preservação da vida é substituída pela lógica da supremacia dos mercados. Resta apenas compreender que a tal Autonomia é concedida para aqueles cidadãos que podem pagar por alimentos realmente bons e ricos em nutrientes. Enquanto isso, resta para os menos favorecidos apenas produtos e alimentos massificados e inseguros quanto à sanidade biológica e nutricional.

Referência Bibliográfica
Siliprandi,Emma. POLÍTICAS DE SEGURANÇA ALIMENTAR E RELAÇÕES DE GÊNERO.

Joaquim Leães de Castro
Joaquim Leães de Castro

Joaquim Leães de Castro é Psicólogo Clínico com Especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental e Pós-Graduado em Sexualidade Humana.  Experiência com atendimento clínico a adultos e casais.  Atualmente Coordena no Hospital Rocha Maia serviço de Psicoterapia e Psicoeducação Sexual destinado aos usuários do SUS do município do Rio de Janeiro.

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