Antologia, filosofia

Walter Benjamin, por Joaquim Leães de Castro

Walter Benjamin colocou em jogo a forma de enxergar a realidade. Havia uma forma muito própria de elaborar questões relacionadas à filosofia, à arte, à estética, à antropologia, à educação, às ciências sociais, e claro, à história. Sendo assim, entendendo que o caminho, ou método, deveria ser sempre ‘desvio’. Método seria desvio. Toda elaboração intelectual poderia desviar para se chegar onde se gostaria. Essa seria, portanto, a hipótese gerada por ele para a ideia de pensamento estético. Algo que pareceria restrito à história, mas que foi desenvolvido para um entendimento de realidade. Para Benjamin, a arte figura, então, como algo que inaugura uma nova concatenação de ideias. Onde o novo, e a ideia de mundo, renasce cada vez que um artista recria o mundo, ou quando recria o que é o mundo para si. Um pensamento profundo em contato com a arte. Talvez como questão fundamental seria a intenção de classificar coisas que seriam inclassificáveis. Um vigor de pensamento autêntico e autônomo na forma de pensar. Uma questão filosófica que dialoga com a questão do ser e do ‘não-­ser’. Benjamin elaboraria um caminho onde faria um ‘desvio’ para examinar, aprofundar e observar as coisas pelo que elas ‘não são’ (já que não seria possível chegar ao que elas são). A ideia, portanto, de mosaico. Fragmentos que compõem um olhar sobre os objetos. Importa, portanto, a maneira de olhar, deixando os objetos, e suas formas, aparecerem. Benjamin escolhe escrever um caminho que não é direto deixando distintas análises o interessar. Esse pensamento crítico rompe com a intenção e volta continuamente ao princípio. Focando e olhando os objetos de várias formas e sob varias perspectivas. Benjamin traz, então, a ideia de contemplação. A contemplação do objeto. Benjamin faz analogia à brincadeira da criança que cria, através da própria fantasia, uma forma específica de brincar, de se relacionar com o ambiente -­ própria, singular – dando elos de sentido específico às brincadeiras. Para Benjamin, tratava-­se de olhar para uma coisa. Depois para outra coisa, com outro tipo de compromisso que não aquele em direção à verdade. Algo que não é evolutivo e que parece um caminho ou método que não anda em linha reta. Walter Benjamin chama atenção com esse método pois subverte o pensamento dizendo que ‘método’ é ou pode ser um desvio. Nesse processo, o Benjamin filósofo, crítico de arte e crítico literário dialoga sobre o despertar de um olhar.

Um tijolo / um tesouro

Qual o aspecto positivo da barbárie? Da guerra? Começar de novo. O pensamento estético enquanto forma de olhar. Um olhar que observa cada elemento com atenção. Que permite uma visibilidade para as faces das coisas. Para o que há de singular em cada fenômeno especifico. Construir com fragmentos, com restos e resíduos do que aconteceu na história. Pelo que passa despercebido. Um gesto de parar e olhar quem está e foi envolvido com esse objeto. Despertar a forma de olhar e fazer justiça a todos esses envolvidos. Um olhar que não quer decifrar mas mergulhar. Um desvio que se lança na composição e construção e que assume um olhar à partir de perspectivas diferentes que ressignificam o mundo. Trata-­se de um outro ritmo para os olhos atentos de quem quer contemplar.

“Alguém que chega numa cidade desconhecida deveria ter que aprender a se perder na estranheza desse lugar”.

Um pensamento com parada, com respiro e em busca do tempo perdido. Trata-­se de perder o controle do consciente. Da inteligência, da razão e deixar o contágio do inconsciente, do involuntário e do irracional vir à tona. Portanto, um novo arranque. Benjamin fala sobre revalorização do tempo. Por sua vez, da arte enquanto ferramenta que lança um olhar sobre o espaço, o tempo e o ser. Da pessoa sempre se formando, sempre no “sendo”. A Arte exigindo que a Filosofia force um olhar para o que é a singularidade irredutível – enquanto forma e conteúdo ao mesmo tempo. Como objeto e como exemplo, aparece Paris. Aparece enquanto experiência de vida na metrópole, a industrialização, transformação, urbanização, a experiência do choque, da quantidade de gente, do ser objeto dos encontros na multidão diversa e a explosão da técnica. Discute-­se a noção de vivência e a possível pobreza da experiência. Não se trata de um passado singular mas do passado de um povo. Benjamin passa a pensar a modernidade e o tempo do capitalismo. Entender o lugar que a arte ocupa no advento da modernidade. Trata-­se de relação, forma e conteúdo. Um lugar onde saberes tradicionais são questionados enquanto surge uma enorme força produtiva que vem se desenvolvendo e ocupando espaços. Surge uma classe burguesa que precisa inventar sentido num lugar onde o que o outro tem a dizer parece não ter lugar e onde o caráter coletivo da vida se perde a cada instante. O que houve com a comunicação e forma de expressão entre os indivíduos de determinado lugar? Narrativas que perderam importância por meio da oralidade ‘artesanal.’

Romance

O Romance surge, portanto, como forma artística literária moderna. A vida passa a fazer sentido a partir da arte. Surge o herói para aquecer corações. Walter Benjamin enuncia que talvez seja possível encontrar algo de positivo no Romance. Que talvez seja possível a transmissão de algo, ensinamento ou ética de vida. Uma validação do presente com elementos do passado. Algo que vale a pena ser dito e que pode ser passado de geração em geração. Benjamin, então, dialetiza, e não resolve a questão. O narrador quando morre, leva consigo as histórias. Parece que Benjamin enuncia a distância da comunicação humana. Processo de declínio das narrativas orais e reconhecimento pelos movimentos artísticos onde histórias deixam de ser compartilhadas por que parece não haver motivos delas serem transmitidas na vida urbana em comum. No romance, no espelhamento do herói, aparece uma elaboração literária que dá sentido a vida desse herói. A literatura enquanto construção da experiência da escrita e obra que dá sentido para a vida humana.

ADENDO

Segundo Foucault, houve uma consolidação de uma tecnologia de poder na sociedade que instalou uma ordem social em meados séculos 19. Um dispositivo que se relacionaria diretamente com a ascensão do capitalismo e a burguesia, que ele denominou de Poder Disciplinar, que seria um meio de intervenção e normalização social responsável pela própria criação dos desvios e dos comportamentos e desejos desviantes. Poder com o qual criaram-­se normas, as naturalizava, e que classificou como desviante todo indivíduo que não se enquadrasse nessas normas. Isto posto, se faz necessário um estudo que analisa a criação do conceito de medicina social e sobre a problematização que ela faria sobre fenômenos dissidentes as normas vigentes, e que os enquadraria, portanto, a partir de seus próprios conceitos. Todo e qualquer comportamento que não se enquadraria aos padrões vigentes passaram a ser vistos como anomalia, anormalidade e desvio. A ideia, portanto, de um indivíduo diferente dos demais. O indivíduo ‘anormal’ emergindo como desviante e dissidente da norma e a explicação de seu desvio como sendo uma hipotética natureza corrompida. A criação da noção de ‘normal’ também objeto desse estudo. Segundo Foucault, tal construção se deu a partir da criação do termo e noção de ‘População’, termo que iria representar as pessoas de determinada sociedade, seus fenômenos e entendidas como um grupo específico passível de todo tipo de contagem feita pelos seus governos – natalidade, mortalidade, incidência de doenças e a frequência de todos os tipos de desvios de comportamentos. Os comportamentos desviantes, portanto, como sintomas de um individuo que está socialmente inadaptado e que não atende as demandas desse mesmo entorno social.

Voltando à Benjamin,

através da arte, então, surge uma imagem de mim mesmo, sendo. Re encontramos quem nós somos. Movimento que traz a sociedade para dentro do pensamento. Toda história, afinal, começa por um despertar. Novamente, a literatura aparecendo enquanto construção da experiência da escrita e obra que dá sentido, em meio ao caos e a construções arbitrárias, para a vida humana.

Referências Bibliográficas texto Walter Benjamin

ARENDT, Hannah. “Walter Benjamin (1892-­1940). In: Homens em tempos sombrios.  São Paulo: Cia das Letras, 2008.
BENJAMIN, Walter. Experiência e Pobreza. 1933
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas volume I: Magia e técnica, arte e política:   ensaios   sobre   literatura   e   história   da   cultura.  São    Paulo: Brasiliense, 1994
PROUST, Marcelo. O tempo redescoberto. Trad. Lúcia Miguel Pereira. São Paulo: Edusp: Editora Imaginário, 1994.

Referências Bibliográficas texto Foucault

FOUCAULT, Michel. Histoire de la Sexualité I – La volonté de savoir. 1976. Gallimard

Texto: Joaquim Leães de Castro (fevereiro de 2018)

Anúncios

Um comentário em “Walter Benjamin, por Joaquim Leães de Castro”

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s