Antologia, filosofia

Sócrates, por Joaquim Leães de Castro

Na Grécia Antiga, o exercício da Filosofia foi precipitador de uma crise de cosmo visão (do grego, ‘crisis’, que significa quebrar). O ato de filosofar, entendido, então, enquanto um ato de desespero e de se fazer perguntas a todo instante que a cultura não seria capaz de responder. Um momento necessário que perseguiu questões urgentes, problematizando elementos de uma cultura tradicional, onde um novo pensamento se instalaria. Surge, então, um momento de imensa importância histórica. Através do ato de questionar, se propunha por as ‘coisas’ em questão. Pairava, portanto, sobre Athenas uma tensão clara: a ideia de uma sociedade coesa versus o caráter dessa nova forma de pensar – dessa filosofia e desse intelecto individual que se propôs a voltar ao princípio das coisas, ao ‘arkhé’. Momento esse que se exibiu um legado de uma cultura tradicional que não estaria dando conta de resolver as questões que estariam surgindo com tanta urgência. Insinuou-se, a priori, quais seriam os problemas e qual seria a própria capacidade de problematização e os critérios utilizados para o ato de ‘conhecer’. Uma jornada rumo à necessidade de descrever o que seria o ‘real’. Propuseram um olhar sobre o ato de conhecer, e sobre os critérios atrelados a esse processo e movimento. Algo que pareceria não ser exequível pois surgiria a ideia de que o conhecimento sobre o conhecimento, tal paradoxo, não seria possível. Heráclito, talvez, tenha sido um grande expoente desse momento. Propôs um radical questionamento do pensamento humano. Onde na realidade, o ato de nomear o mundo, e as coisas do mundo, seria, talvez, um ato enganoso, onde se suporiam as verdades e as identidades. Proposta que esboçou a ideia de que, na realidade, o homem instaura a realidade conforme discursa sobre ela. Logo, que seria impossível conhecer a physis e também os valores humanos da mesma ‘maneira’, gerando assim, uma imensa crise ética e moral.

O que é o justo, o belo e a virtude? As certezas apressadas.

Nesse sentido, aparecem tanto os pensamentos de Sócrates como de Platão, claramente indissociáveis. Sócrates, enquanto um homem excêntrico que passou a vida, poderíamos dizer, dedicando a vida a conversar com as pessoas na ágora com um interesse claro: constante análise e questionamento sobre as vidas das pessoas. (Não à toa, existe na corrente da Psicologia Cognitivo-Comportamental, técnica e estratégia terapêutica denominada ‘Questionamento Socrático’, onde o terapeuta formula perguntas de modo a fazer o paciente questionar como se chegou

a conclusão de determinado fato, com o objetivo de fazer o paciente reconhecer quais ideias ou pensamentos possivelmente ‘equivocados’ o levaram a uma má interpretação dos fatos.) Os encontros com Sócrates não seriam embasados em análises profundas, mas sim perguntas elementares onde as pessoas eram obrigadas a reconhecer a própria ignorância. A própria noção de ‘Justiça’, o e critério que a determina e a reconhece, como exemplo, foram problematizadas e questionadas. Sócrates foi responsável por questionar aqueles indivíduos que, segundo ele, insuflados de falsas sabedorias, estariam levando a Grécia à lugares de extremo prejuízo social e ético. Como efeito, surge a famosa frase, “Só sei que nada sei”. Pensamento que tinha como premissa atestar a ignorância, e a plena convicção dela, no sentido de se colocar na direção da verdadeira sabedoria. Sócrates, então, foi sentenciado à morte por ousar questionar o pensamento e a forma de pensar. Condição que também o levou a questionar a própria sentença – sobre a ideia de morte. Sócrates questionou tal destino. Pois colocou que um homem bom, aquele que admite sua ignorância, nada teria a temer com a morte pois essa ‘saída’ seria, de um lado, ou apenas um longo sono sem sonho, ou do outro lado, apenas um encontro com alguém que lhe daria (possivelmente) algum tipo de perdão.

A nova tragédia e sua (nova) tensão fundamental

Nesse sentido, em meio ao caos, Sócrates diria que apenas uma sociedade doente seria capaz de condenar à morte aquele que desafia aqueles que se dizem sábios. E que, nesse processo, na realidade, ele diria que a vida, sim, seria uma doença e a morte a verdadeira cura. Onde o corpo de Sócrates poderia morrer, porém não suas ideias. Ideias essas que nunca sairiam de Athenas. Logo, tal conjectura traria o nascimento de um novo e aperfeiçoado herói trágico que perfaria a Grécia. Um golpe na experiência de realidade e na tensão ‘eu’ e o ‘mundo’. Portanto, uma distinção entre ‘eu’ versus ‘mundo’. Ideia extremamente importante que delimita clara distinção: Sempre que se age sobre o mundo, aparece a Liberdade. Em contrapartida, quando o mundo age sobre ‘você’, seria Necessidade. Gerando, portanto, uma enorme tensão, e forças em conflito, que discutem ideias entre liberdade e necessidade. A nova tragédia trazendo, portanto, em seu bojo, essa tensão como tensão fundamental. Eu versus mundo.

O cidadão versus a polis, logo, um embate que não é claramente proporcional e nem justo. Dessa forma, surge um novo herói que chama a Polis para o embate. Herói que é impiedosamente destruído, mas que afirma sua liberdade, e que descobre ‘o que’ e ‘quem’ se é. Estraga o fundamento da tragédia clássica onde o herói é um mero mortal e comum. Nesse sentido, figura então, a história de Édipo Rei. Édipo quer saber quem ele é. Quer saber qual é a causa do mal. Será ele? Quer, portanto, extirpar o mal do mundo. E, ao final, mesmo diante da destruição, ficará bem, pois descobriu quem se é. Saiu, portanto, da ignorância. Um recado, portanto, bastante sutil – Ideia que retorna ao sacrifício de Sócrates e a ideia de que seu legado, suas ideias, e a forma de se descobrir a verdade das coisas, serão eternas.

Nem Édipo, nem Sócrates irão se descobrir apesar de se destruir.

A ética do mártir; se destrói para se construir.

O exercício da Filosofia passa a ser marcado pela égide do indivíduo. Um herói que enaltece a potência dos indivíduos e que se destrói descobrindo quem se é, forjando uma ‘saída’ diante do infortúnio. Outrora, os mortais seriam meros joguetes dos deuses. A sabedoria trágica indicava que nada se sabia. E que nada se podia. Nesse processo de destruição, então, surge um novo exercício, portanto, um indivíduo anti–trágico. Uma nova tragédia para um novo espírito onde o indivíduo pode vencer. Assim, nasceria uma nova civilização e, assim, para esse novo entorno uma nova filosofia.

Uma afirmação de ordem social contra uma ordenação social – uma dura crítica à polis Atheniense. A vida não examinada não vale a pena ser vivida. Filosofar, portanto, como ato de se preparar para morrer. Portanto, um modo de vida. Indivíduos passaram a perceber que os costumes gregos poderiam ser diferentes e que novas convenções poderiam ser estabelecidas. Mas com quais critérios? Talvez, que essas novas convenções deveriam ser criadas a partir do nada. Afinal, seria difícil dizer quais costumes e convenções seriam melhores que as dos outros povos e culturas. A justiça, então, enquanto a ordem da força do mais forte, é posta  prova: o objetivo de provar que ela poderia ser um bem em si mesmo e que, portanto, deveria ser a ordem da polis. Talvez a virtude estivesse justamente aí: Não se persegue aquilo que já se tem. Logo, trata-se da assunção da própria ignorância que permite a possibilidade para a Filosofiaemergir. Um lugar que ensina a pensar, investiga questões e que não exibe e ilustra doutrinas.

Os diálogos de Platão, então, reproduzem encontros com Sócrates para que o projeto da filosofia funcione. Nesse sentido, retoma a uma pergunta clássica e extremamente problemática: O que é? Dizer o que é uma pedra enquanto sendo algo, talvez, cognoscível e visível, mas também mais fácil e simples de explicar. Contudo, num segundo momento, algo que pergunta o que é justiça ou piedade enquanto sendo algo imaterial e extremamente subjetivo e abstrato. O que leva Platão a fazer um movimento de se dobrar sobre si próprio. Que deixa de buscar a essência das coisas e passa a fazer uma ‘essenciologia.’ Como resultado, o ser humano, portanto, enquanto algo que nasce em aberto. Ser que primeiramente existe e que depois instaura a sua própria essência. Conceito, portanto, enquanto aquilo que a mente apreende. Trata-se da potência de definir-se a si próprio.

Pensamento que é deslocado, portanto, para se discutir a politica, a moral e a noção de justiça.

Texto: Joaquim Leães de Castro (fevereiro de 2018)

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s