Píndaro de Carvalho Rodrigues

Foi criado no município do Rio de Janeiro um serviço de ambulatório de Psicologia para o Sistema Único de Saúde que desenvolve trabalho e projeto focado em questões, transtornos e disfunções da sexualidade humana. O advento desse trabalho se da a partir da necessidade de se pensar Sexualidade como uma questão de Saúde. Nesse sentido, o trabalho é pensado de forma a conseguir atender a população de baixa renda se baseando no método PLISSIT que separa em quatro estágios distintos, quatro formas de acolhimento e atendimento, um trabalho que visa um atendimento dinâmico e multidisciplinar e que orienta, instrui, ensina e educa o paciente a compreender as muitas questões concernentes a Sexualidade.

O primeiro passo do projeto é abrir espaços de diálogo dando “permissão” aos usuários e pacientes a falar livremente e de forma confortável sobre questões à respeito da própria sexualidade. Nesse processo, legitima-se a Sexualidade como Questão de Saúde.

Sentimentos como ansiedade, culpa, inibição e vergonha podem aparecer. Vital o processo de validação das demandas e queixas dos usuários que passam a se sentir acolhidos na sua integridade. A ideia é que se
possa compreender as dificuldades dos pacientes e usuários com o objetivo de “habilitá-los” a reconstruir e reelaborar mitos, ideias e crenças sobre a sexualidade. A Terapia Sexual aparece como uma ferramenta fundamental com o objetivo de compreender o contexto psicológico, biológico, relacional e o contexto social e cultural das
dificuldades sexuais nos indivíduos. A Terapia Sexual surge como uma ferramenta para o tratamento das disfunções sexuais mas que também pode ser entendida enquanto estratégia terapêutica que se ocupa em compreender a expressão sexual dos pacientes como um todo. Dessa forma atende e dá luz a outras questões e demandas de ordem sexual que possam surgir. Nesse sentido, a TS é entendida enquanto tratamento voltado a obtenção do prazer sexual, um atendimento que procura recuperar a confiança do paciente, modificar repertórios sexuais
rígidos, aumentar a capacidade de comunicação dos sujeitos, e, enfim, que acessa qualquer questão ou dificuldade relacionada a uma questão ou dificuldade sexual. A Terapia Sexual tem como objetivo identificar experiências subjetivas de vida traumáticas bem como possíveis repreensões ao longo do desenvolvimento e na infância, iniciação sexual desprazerosa, iniciação sexual atrelada a situações vividas como complicadas, e/ou práticas violentas (estupro) responsáveis por gerar comportamentos disfuncionais na vida adulta. Um projeto e trabalho que tem como objetivo falar sobre quaisquer assuntos que envolvam a formação dos indivíduos bem como seus processos de socialização. O projeto SEQN apresenta-se com a intenção de promover uma assistência à Saúde, se comprometendo a associar-se às equipes da saúde da Família, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e aos
Núcleos de Apoio às Equipes de Saúde da Família (NASFs) do município do Rio de Janeiro. Trata-se de um projeto de acolhimento psicológico, social e educacional, voltado às questões da sexualidade humana, com interesse em ações voltadas para apoiar a população da Comunidade da Rocinha. Um trabalho que visa mobilizar a comunidade a compreender os benefícios em procurar ajuda para falar sobre Sexualidade.

Sexualidade, portanto, como sendo a expressão do indivíduo. O projeto SEQN oferece espaço de liberdade e de conhecimento. Talvez o desafio seja demonstrar a disponibilidade e a ideia de um espaço aberto à diversidade sexual humana e à complexidade dos problemas sexuais. Mulheres, em sua maioria, têm vergonha de falar sobre sexo,
enquanto homens têm vergonha de expor dúvidas sobre o assunto.

Trata-se de um ambiente terapêutico e educacional que entende o assunto sexualidade como fundamental para a qualidade de vida. Fatores psicológicos e relacionais talvez sejam as principais causas dos bloqueios, impedimentos, confusões e complicações sexuais. Comportamentos sexuais são definidos por determinadas sociedades e
culturas e quando fogem do convencional podem ser considerados atípicos. A natureza da atividade sexual, a idade dos parceiros e a escolha do objeto sexual representam um cenário importante a que o terapeuta deve investigar. Deve ser realizada, neste caso, uma investigação que se propõe a compreender, nos sujeitos, como a afetividade e intimidade é encarada e representada nas suas relações. Esse talvez seja o início de uma análise consistente no que diz respeito à forma como indivíduos vivenciam a sexualidade. É significativo o efeito das Disfunções Sexuais sobre o indivíduo e seus relacionamentos. Algumas das consequências encontradas mais recorrentemente nos consultórios são problemas de autoestima e autoconfiança, dificuldade em estabelecer vínculos afetivos e desconforto causado por não atingir êxito e prazer nas relações sexuais. Casais irão enfrentar e passar por fases diferentes ao longo
dos relacionamentos e talvez “ter tempo” ou a motivação para reorganizar a vida sexual seja algo colocado de lado. Muitas vezes, problemas sexuais podem estar impedindo o início da construção de uma família, por exemplo. O terapeuta deve estar preparado para compreender o universo em comum dessas duas pessoas que não sabem como operar mudanças de modo a não comprometer a relação. Entender que mudanças são naturais e que muitas vezes atender a elas é garantir uma ‘nova’ vida mais segura e satisfatória que está por vir. Fenômenos como bullying, experiências sexuais traumáticas, abusos, estupro e quaisquer formas de violência podem se tornar fatores que
afetam o desenvolvimento e manutenção de problemas e disfunções sexuais. A compreensão do tempo de duração de um abuso, saber se houve violências ou imposições, são fatores centrais no entendimento de quadros assim. A sensação subjetiva de dificuldade de se conectar com pessoas e de trabalhar a afetividade e intimidade podem ser
problemas que carecerão de anos de tratamento.

Faz-se necessário atendimento que compreenda outros cenários não tão comuns – Transtornos parafílicos, entre eles, o Exibicionismo, o Voyeurismo, a Pedofilia e o Sadomasoquismo são comportamentos sexuais caracterizados por uma excitação do sujeito diante de objetos e situações que não fazem parte daquilo que é considerado normal e que podem trazer sofrimento e prejuízo clínico significativo a muitos indivíduos. Sociedades conservadoras fazem do sexo um assunto tabu, gerando, assim, repreensões e censuras na expressão da sexualidade dos indivíduos. Elementos como vergonha, ausência de conhecimento sobre o assunto sexo, o medo de parecer inapto ou inadequado e até de ofender o parceiro surgem com enorme facilidade e atrapalhando o desenvolvimento de inúmeros pacientes. Abrem-se, assim, várias questões de autoestima, insegurança e insatisfação com o próprio corpo
que carecem de investigação. Nesse sentido, surge a importância de um trabalho que acessa e dialoga com qualquer expressão de gênero e que acolhe indivíduos que se identificam com a esfera LGBTQI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Queers e Intersex).

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